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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

CARPIE DIEM

          Era noite, Seu Nilo estudava na calçada do prédio. Era aquela mesma noite. Viu aquele mesmo rapaz passando com o nariz sangrando, era Paulo, mas ele pedia ajuda.
- Ei! Rapaz! O que aconteceu?
- Eu fui assaltado. Levaram tudo, até o carro, eu não tenho nem como voltar para casa... – ele se apoiava no ombro de Seu Nilo.
- Venha comigo. Vamos limpar esse nariz, tomar um café para esquentar. Você tem que ligar para seus pais, eles devem estar preocupados!
- Obrigado senhor...
- Pode me chamar de Nilo!- ele o carregava devagar para sua casa.
A casa das meninas estava limpa, não tinha sangue no chão, o centro estava no mesmo lugar, a bola de vidro também.
Adriana havia encontrado o escapulário e corrido ao encontro da amiga para agradecer o presente. Larissa estava olhando o teto, ela teve um susto quando a amiga entrou de supetão.
-Que susto Adriana!
-Você é demais! – Adriana sentou ao lado da amiga.
- Que alegria é essa?
- Só você pra me dar esse presente maravilhoso, obrigada!
- Pra você usar no seu casamento.
- Obrigada por tudo, mesmo.
- Ás vezes, as palavras valem menos que os gestos. – elas se abraçaram.
- Tenha uma boa noite com seu namorado virtual! – Adriana apontou para o computador apitando.
Larissa pulou da cama e sentou a frente da escrivaninha e Adriana saiu.
- O q tá fazendo?
- Tocando 1 música p vc.
- Depois qro escutar...
- O q ñ faço por vc?... eu tenho algo a dizer...
- O q?
- Eu conheço vc.
- Eu sei.
- Eu moro perto da sua ksa.
- Pq vc nunk me disse?
- Eu tinha medo. Mas agora eu me encorajei a dizer qm eu sou.
- E qm é vc?1 tarado?Louco?
- Sempre fui apaixonado por vc. Sou César o vizinho q mora na ksa da frente.
- Quando eu contar até três, a gente corre pra rua!
- 1 -2-3...
Os dois saíram correndo agoniados com os obstáculos, Adriana assustou-se com o barulho da correria, mas não alcançou a amiga, ficou olhando pela janela. César também correu como um louco, desesperado.
Chegaram à calçada e pararam cansados, caminharam devagar, e pela primeira vez, Larissa o olhou com olhos de apaixonada, seguram as mãos, sentiram tremer, era o vento frio. Eles riram meio envergonhados e se abraçaram com um beijo. Depois saíram pela rua andando e conversando sem pensar no tardar das horas.

“Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida.”
Carlos Drummond de Andrade

FIM!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

O QUE RESTA DE MIM

Larissa morreu. Ainda estava deitada na cama da sala de cirurgia. As marcas da morte já eram aparentes: a palidez e a rigidez dos músculos, os dedos e os olhos arroxeados, nada se movia. A porta estava trancada, alguns minutos após a sua morte veio uma mulher da limpeza, olhou para Larissa e exclamou: - Tão nova... – e continuou o seu serviço, era comum ver óbitos como esse.
Depois a mulher da limpeza saiu do quarto com um saco de lixo.
Um homem alto e forte entrou em seguida, ele estava vestido de branco, como um médico. O homem pegou uma cadeira de plástico que estava no canto da sala atrás da porta, pôs ao lado da cama e sentou. E em seguida, pegou a mão gelada de Larissa e chamou-a: - Larissa... – e repetiu mais uma vez.
E como por um milagre, Larissa abriu os olhos, uma forte luz invadiu sua retina deixando-a zonza e continuou deitada olhando a luz forte que vinha do teto.
- Onde estou? Quem é você?
- Pergunta freqüente. A maioria das pessoas diz isso depois que acorda, a pergunta mais inusitada que escutei foi um rapaz que perguntou se eu era chefe de cozinha!
Larissa riu, mas sentiu uma dor no peito e viu um curativo encharcado de sangue.
- O que aconteceu comigo?
- Você não lembra?
E tudo o que aconteceu apareceu como um flash back rápido, ela lembrou. Larissa pôs a mão no peito, lembrando de Adriana, do notbook, do tiro... A vinda para o hospital, o coração parando... A morte...
- Mas eu nem casei, nem tive filhos, eu sou tão jovem para morrer!
- Larissa. Você está morta!
- E o que eu estou fazendo aqui? Acordada, conversando... É um sonho?
- Não. Não é sonho. Eu fui enviado para decidir o seu futuro e você vai me ajudar.
- Que futuro?Eu estou morta!
- Vamos fazer uma viagem no tempo. – o homem pegou em sua mão e levou-a em direção a porta pela qual ele havia entrado. Foram parar numa sala minúscula, e tinha lugar para apenas três pessoas, as paredes azuis e os móveis brancos.
- Onde estamos?
- Você pergunta demais. Quando eu abrir aquela porta, você verá toda sua vida...
              - Eu estou com medo!
- Todos têm medo de lembrar o passado.
Larissa respirou forte e seguiu em direção à segunda porta, segurou a maçaneta e entrou num corredor escuro, o homem entrou atrás dela. A única luz que iluminava eram telões pendurados nas paredes.
O primeiro telão ligou sozinho e Larissa pôde ver o seu nascimento. Ela chegou mais perto e tocou-o, a boca aberta e lágrimas nos olhos.
- Eu tô nascendo... Porque você ta mostrando o meu nascimento? – ela não parava de olhar aquela cena.
- Quando você nasceu sua estória começou a ser escrita. Esse é o momento mais importante da sua vida. Veja como a sua mãe está feliz!
- Eu sou muito feliz por ter uma mãe como ela. Eu lembro do meu pai brigando com a mamãe porque eu e Pedro sempre aprontávamos. Mas eles sempre se respeitaram!
Eles seguiram o caminho e mais uma tela ligou, mostrou o primeiro dia de aula, Larissa tinha cinco anos, segurava as mãos dos pais, era pequena e indefesa.
- Eu tava tão nervosa nesse dia...
- Seus pais também estavam. – Ele riu e bateu no ombro dela.
Eles pularam vários telões e pararam em um que mostrava os dez anos de Larissa, quando ela conheceu Adriana, elas eram vizinhas e tornaram-se grandes amigas.
- Você está bem?- o homem perguntou.
- São momentos como esses que eu percebo o quanto precisamos das pessoas, somos todos importantes...
- Se você quiser, podemos parar.
- Não. Vamos continuar.
Aos doze anos, Larissa menstruou e deu o primeiro beijo, aos treze se maquiou e foi à primeira festa sozinha, aos quinze, debutante e teve seu primeiro namorado. Larissa viu quando ajudou no namoro de Adriana e João Antônio. Essas cenas todas foram mostradas, algumas ela nem lembrava mais, ela ria com lágrimas nos olhos ou chorava com um sorriso nos lábios.
Aos dezoito, prestou vestibular e mudou-se para o apartamento de Adriana, a imagem da mudança congelou.
- Porque parou? – Larissa perguntou.
- Você sabe quem é esse rapaz?
- O vizinho que mora em frente. Não me diga que ele me matou?
-Você nem desconfia o que ele representa na sua vida?
A imagem descongelou e ela viu o dia o dia em que os dois começaram a conversar pela internet e ficou surpresa com a descoberta.
- Ele estava o tempo todo ao meu lado e eu não o vi. – Larissa levou a mão à boca.
E após aquela cena, Larissa viu o resto de sua vida até o dia de sua morte.
- Eu não acredito que o rapaz que me matou é um burguês safado! Como podem roubar por diversão? Eles merecem umas boas palmadas para aprender o que é dignidade! Só por ter dinheiro acham que podem fazer e desfazer?
- O que você quer fazer agora?
- Como assim? Eu estou morta, esqueceu?
- Em algum momento de sua vida, você nunca pensou em voltar no tempo e mudar o que disse, fez ou deixou de fazer?
 - Sim...
- Lembrando que você só poderá fazer três pedidos.
- Na verdade, eu gostaria de voltar no tempo agora e não deixar aquele rapaz ter tratado Seu Nilo daquela maneira. Eu quero que ele nunca tenha conhecido meu irmão, que seja um homem bom!
- Não quer mudar mais?
- Eu já pedi as três mudanças...
- Larissa, você pediu todas as mudanças para o homem que te matou e essa é atitude de poucos. Você poderá voltar!
Larissa vibrou de alegria e abraçou o homem.
- E quanto a César?
- Pode deixar como estávamos, acredito que aconteceria algo inacreditável quando fomos interrompidos... Pensei em mudar o mundo, mas eu não posso com tanto. As pessoas precisam se conscientizar e tentar mudar também. Mudar o mundo não cabe só a mim, cabe a todos nós. Eu agradeço, mas não posso mudar mais nada.
- Então o sonho acabou?
- Não. O sonho só está começando!
- O seu pedido é uma ordem!

domingo, 30 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

A PERÍCIA

Depois de os policiais terem levado Larissa para o hospital, Seu Nilo voltou ao apartamento das meninas e encontrou apenas um policial desligando o telefone.
- Chamei o investigador. Agora, permaneça aqui para o perito falar com o senhor.
- Eu espero. Posso ligar para minha esposa? Quero informar que vou demorar...
- Claro.
O policial ligou para João Antônio, perito em casos de homicídios e assaltos. Era o noivo de Adriana. Estava dormindo no momento do acontecimento, acordou apenas quando o telefone que estava no chão tocou, era um policial: - Não tinha um momento melhor para ligar?...O quê?...- Ele sentou. - É na casa da minha noiva! Eu tô indo... Não toque em nada... Sim... E eu chamo a minha equipe!
Desligou o telefone com a calça jeans na metade das pernas:- Alô? Raissa querida desculpe incomodar a sua noite de amor... Eu sei! O negócio é sério. Vá correndo... É na casa de Adriana... Valeu!
Aos poucos, os curiosos foram saindo, João Antônio chegou ao mesmo momento que sua assistente.
- O que aconteceu? – Perguntou Raíssa.
- Ainda não sei. Parece que um assalto com assassinato...
- Típico de um iniciante...
- É o que vamos ver.
Um policial se aproximou dos dois: - O senhor é o responsável pela investigação?
- João Antônio.
- Vamos à cena do crime.
João e Raissa conversaram com Seu Nilo e o deixaram ir embora. O policial também foi interrogado. Apanharam provas no local que aconteceu o crime, havia uma poça de sangue entre o corredor e o centro da sala, uma bola de vidro espatifada no chão, o centro estava um pouco afastado. Encontraram pegadas de sapato que contornavam a sala e davam direto na janela que estava aberta. João resolveu ir ao quarto de Larissa, e logo encontrou o notbook ligado, ao mexer o mouse, viu que Larissa estava conversando com alguém.
- Raissa, pegue o notbook! Vou visitar um amigo!
César ainda estava sentado em sua poltrona verde, vendo as fotos que tirou dos assaltantes, a campainha tocou, ele ficou um pouco assustado – Quem seria àquela hora da noite? – Foi até a porta e perguntou quem era.
- Detetive João Antônio!
César abriu a porta ainda assustado.
- Quero fazer algumas perguntas... Você viu o que aconteceu no prédio aí da frente?
Sim... Eu quero que você veja isso! – César mostrou a câmera.
- São provas importantíssimas!
- E levam direto aos criminosos! – disse César.
- Preciso levar a sua câmera!
- Pode levar.
- Obrigado pelas provas!
João saiu olhando as fotos, ele já estava na porta do edifício quando o seu celular tocou, era Raissa: - Você não sabe o que encontrei! – disse o detetive.
- Então venha depressa, você também não vai acreditar!
Em pouco tempo, João chegou ao apartamento da noiva. Raissa estava na janela.
- O nosso ladrão estava sem luvas!
- Encontramos nosso ladrão!
- Como assim?
- Um rapaz me deu provas concretas do autor desse crime. – ele mostrou a câmera.
- Só falta saber o nome dele!
- Vamos embora, não precisamos de mais nada, o que temos é suficiente. Pegou as digitais? Vamos comparar com as dos outros crimes.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

NOITE SEM LUAR

César estava acompanhando de fora, como um espectador, ou melhor, uma testemunha ocular. É um conhecido de Larissa e Adriana, mora numa casa de frente para o Edifício Dom Bosco. Eles passavam um pelo outro e se cumprimentavam com, “bons dias”, “oi”, “tudo bom?” Ela nem sabia o nome dele!
Mas César tinha um segredo: uma paixão secreta por Larissa, eles conversavam pela internet e ela não sabia.
Naquela noite, ele resolveu contar à Larissa de sua paixão, quando fosse falar com ela pela internet. Seria difícil, pois ele nunca foi tão corajoso como agora. A noite estava devagar e pacata, o vento não balançava a copa das árvores, estava quente naquele dia de outono que mais parecia verão. A lua não apareceu, era lua nova. César começou a pensar no que diria a Larissa. O que ela iria pensar? Ele estava em seu quarto, deitado na cama, a janela aberta de frente para o apartamento de Larissa, havia uma câmera fotográfica na escrivaninha perto do computador, tocava um violão enquanto lembrava-se do dia que a conheceu.
Era uma tarde nublada Larissa tirava muitas malas de um carro com Adriana, eram pesadas, ele estava passando na calçada e ela pediu-lhe ajuda:
- Ei! Você pode nos ajudar com essas malas?
Ele não respondeu, mas ajudou. Levou as malas até a sala e acomodou-as no canto da porta.
- Obrigada. Você mora aqui perto?- e antes que ele pudesse responder Adriana o fez.
- Ele é nosso vizinho. Mora aí na casa da frente.
- Prazer. Larissa. E você?
-... César.
- Pois é. Eu sou a sua nova vizinha.
- Tchau.
Voltou de seus pensamentos rindo do que aconteceu naquela época. Recordou de outro acontecimento, quando voltando da faculdade com um monte de livros, ela mais uma vez pediu a sua ajuda.
- César! É o seu nome não é?
- Precisa de ajuda?
- Parece que eu só preciso de você quando estou com alguma coisa pesada. – ela passou alguns livros para ele.
- Eu não me importo.
- Você é um homem bom. Sabia?
Ele a acompanhou até a porta do apartamento e despediu-se.
Um dia, mexendo nas páginas de relacionamento da internet encontrou Larissa, teve a idéia de conversar com ela sem se identificar. E deu certo. Todas as noites, eles conversavam, um aconselhava o outro, foi o início de uma grande amizade.
No horário marcado, mandou uma mensagem para Larissa, ela respondeu:
- O q tá fazendo?
- Tocando 1 música p vc.
-Depois qro escutar...
- O q ñ faço por vc?... eu tenho algo a dizer...
- O q?
-Eu conheço vc.
-Eu sei.
-Eu moro perto da sua ksa.
- Pq vc nunk me disse?
- Eu tinha medo. Mas agora eu me encorajei a dizer qm eu sou.
- E qm é vc?1 tarado?Louco?
- Sempre fui apaixonado por vc. Meu nome é César o vizinho q mora na ksa da frente.
Mas Larissa não respondeu. Antes que ele pudesse terminar de escrever ouviu um barulho parecido com um tiro, e depois ouviu gritos, olhou pela janela e viu um homem descendo rapidamente o prédio em que as meninas moravam. Pegou a câmera fotográfica na escrivaninha perto da janela e conseguiu tirar fotos dos rapazes que estavam em baixo e do que acabava de descer. César era um ótimo fotógrafo, fazia por hobby, mas era editor numa revista.
Nos minutos seguintes, César viu Seu Nilo sair e pedir ajuda a uns policias em serviço. Um aglomerado de gente se fez na porta do Edifício Dom Bosco, ele preferiu ficar em casa vendo da janela e tirando fotos. A vítima saiu nos braços dos policiais, o sangue escorria dos dedos, o coração do rapaz saltou, era Larissa quase morta. As lágrimas vieram, ficou imóvel por alguns segundos, depois  sentou-se numa poltrona verde, calado, mergulhado em seus pensamentos, sentindo que foi tarde demais a sua coragem para se declarar.



''Hoje a noite não tem luar
E eu estou sem ela...''
(Renato Russo)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

ERRO PERFEITO

Paulo Santos Corrêa Filho pertencia a uma família rica e seus pais nunca mediram esforços para dar ao filho o que ele queria. Aos quinze anos começou a fazer pequenos furtos com os amigos apenas por brincadeira. Na casa dos amigos da alta sociedade, a culpa era sempre das empregadas. Nunca foram pegos pela polícia, por que usavam terceiros em seus roubos. Parecia ser um bom rapaz diante a sociedade nobre, que viviam sob os privilégios da vida. Esse é o assassino de Larissa.
Fazia algum tempo que Paulo e os amigos rondavam os prédios do bairro que Larissa e Adriana moravam, passaram a semana observando o edifício Dom Bosco, procurando conhecer os horários dos moradores, meios de entrada, observou também o horário de dormir de cada condômino com seus comparsas. Perceberam que no segundo andar, um dos apartamentos sempre deixava a janela aberta, combinaram de assaltá-lo na madrugada do dia cinco de abril às duas horas.
Naquela noite, Paulo disse aos dois amigos que o esperasse na rua ao lado do prédio. Ainda estava em casa se arrumando para sair, passou na sala e beijou a mãe.
- Aonde vai meu amor?
- Numa festa com os amigos.
- Cuidado com as amizades!
- Pode deixar mãe. Dá um beijo no pai por mim.
Para disfarçar, Paulo foi a uma boate antes de fazer o roubo. Acendeu um cigarro, pegou uma cerveja e entrou na pista de dança. Viu uma mulher dançando com um rapaz, resolveu puxá-la para dançar, agarrou sua mão forte, sem ela querer ficar perto dele.
- Vamo dançar, gatinha!
- Me solta!
- Solta ela, cara!
-A biba vai fazer o quê?
O rapaz deu um soco no nariz de Paulo, espirrou sangue, ele quis revidar, mas os amigos do outro rapaz o seguraram e expulsaram-no da boate.
- Ainda pego aquele gay! – e saiu em direção ao Edifício Dom Bosco, o sangue ainda escorria de seu nariz, ele passava na frente do edifício quando um homem o abordou oferecendo ajuda:
- Precisa de ajuda rapaz? O que aconteceu?
- Me larga! Não preciso da ajuda de um empregado!
- Calma, a escravidão já passou. Quero apenas ajudar.
- Solta, negro safado!
- Preconceito é crime!- falou se afastando.
- Não enche! – ele sussurrou e não demorou chegar onde os amigos o esperavam.
- O que aconteceu, cara?
-Nada. Fiquem aqui em baixo. Eu subo dessa vez e pego o que tiver de valor...
- Boa sorte. – Eles riram e fizeram um gesto de cumprimento.
- Valeu.
Paulo escalou o prédio, chegou ao segundo andar, afastou as cortinas delicadamente e entrou na casa bagunçando todas as coisas sem fazer barulho.
- Droga! Esqueci as luvas. Agora é tarde... – continuou a caminhar esquivo. Sem querer, bateu a perna numa mesinha e derrubou uma bola de vidro que se espatifou no chão, ele pulou de dor. Percebendo os passos de alguém pela casa sacou uma arma da cintura, calibre trinta e oito, e apontou para onde vinham os passos, a pessoa tentou acender a luz, ele atirou antes que ela pudesse o fazer, e correu para a janela sem nada levar.
Paulo estava assustado ao descer do prédio, seus amigos perceberam a sua palidez.
- Aquilo foi um tiro?
- Acho que matei alguém!
- Você ficou louco? ROUBAMOS SÓ DE BRINCADEIRA, ZOAÇÃO!
- Fala mais baixo, idiota! Quer que nos escutem? Eu não sei o que aconteceu.
- Vamos sair daqui, eu tô com medo...
- Tenho uma idéia melhor, fiquem aqui e esperem alguma notícia. Me liguem, se virem qualquer coisa.
- Vai logo, cara!
- Valeu. - Paulo entrou no carro vermelho que os amigos estavam e foi embora nervoso.
Os amigos de Paulo viram todos os movimentos de perto, camuflados entre os curiosos, viram até o momento que levaram uma moça ao camburão nos braços de dois policiais.
- Vamos embora, antes que venham nos perguntar alguma coisa.

sábado, 22 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

SAUDADE APERTA O CORAÇÃO

Quando Pedro e Larissa saíram de casa para estudar, seus pais ficaram sozinhos, sem nada para fazer, já estavam aposentados e “sentiam-se velhos demais para estar por aí, como ‘’adolescentes”.
Estavam em casa, como sempre, assistindo televisão.
- O que vamos fazer hoje?- perguntou o velho.
- Hoje é o último capítulo da novela, quero saber quem é o assassino do pai da Claudia...
- Todo dia, quando a noite chega, sentamos nesse sofá e assistimos novela. Não temos outra coisa para fazer?
- Somos velhos. E quando a velhice chega, o cansaço chega junto e nada dá para se fazer...
- Estamos morrendo sentados aqui. - ele sentou perto dela triste. Ela desligou a televisão.
- O que você propõe que façamos esta noite?
- Tire esta camisola, vamos ao teatro!
A velha fez o que o marido pediu. Vestiu um vestido florido, acrescentou um batom vermelho nos lábios e brincos perolados. Saíram de mãos dadas, como não faziam há tempos. Pegaram um táxi até o teatro que não era muito longe de onde moravam. Estava quase lotado, mas conseguiram um bom lugar na platéia. Era uma comédia, eles riram muito. Identificaram no palco alguns amigos que também estavam aposentados, como eles, já que a peça era formada apenas por idosos. Foram convidados a subirem no palco, no início, a velha estava envergonhada, mas o marido tanto insistiu que ela aceitou subir. O mais engraçado é que tudo era improvisado, os dois riam o tempo todo, a velha deixou de se sentir velha e passou a se sentir Joana enrolada com lenços e fantasiada de borboleta e o velho tornou-se Agenor recitando poesias engraçadas para o povo rir. No fim, foram muito aplaudidos. No camarim conversaram com seus amigos:
- Queremos agradecer por vocês terem vindo nos prestigiar.
- Nós que agradecemos. Senão, estaríamos em casa assistindo novela!
- E é por isso que queremos fazer um convite...
- Se for para ver vocês novamente, já somos seus fãs!
- Queremos que vocês participem do grupo de teatro. E não aceitamos “não” como resposta!
- Pode nos esperar para os ensaios, não vamos faltar!
- Vocês vão amar!
- Adoraríamos ficar conversando, mas temos que ir. Vamos querida?
- Nem vi o tempo passar. Me sinto jovem outra vez.
- E quem disse que não somos jovens?
O telefone tocava quando chegavam a casa, Joana atendeu. Era Pedro, seu filho: - Mãe?
- Oi meu amor... Você não sabe...
- Aconteceu o pior...
- Foi com sua irmã? Não me assusta, filho! Bateram em você?
- O que aconteceu?- perguntou o pai.
- Não é comigo. Larissa levou um tiro, já a levaram para o hospital...
- Como aconteceu? – Joana sentou-se no sofá e começou a chorar.
- Assalto... - o pai sentou ao lado da mulher e a abraçou sem saber o que tinha acontecido.
- Já estamos indo!
- Tchau!- Cuide da sua irmã até eu chegar aí... – desligou o telefone imediatamente.
- O que aconteceu?
- Larissa levou um tiro!- ela ainda estava chorando.
- O quê? Onde?
- Não sei, parece que foi um assalto! – eles se abraçaram.
- Meu Deus. Que mundo é esse?
- Vamos logo para o hospital...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

ONDE O SONHO MORA

Seu Nilo trabalha no edifício Dom Bosco há vinte anos, e mora com sua família lá também. Faz três anos que ele voltou a estudar, terminou o ensino médio e passou no vestibular no curso de direito, esse é um objetivo que ele lutou com sacrifício e perseverança.
Na noite do assassinato de Larissa, como de costume, Seu Nilo estava estudando sentado em uma cadeira na calçada do prédio com um livro apoiado nas pernas. Ele viu um rapaz andando rápido com o nariz sangrando. Resolveu ajudar.
- Precisa de ajuda rapaz? O que aconteceu?
- Me larga! Não preciso da ajuda de um empregado!
- Calma, a escravidão já passou. Quero apenas ajudar.
- Solta, negro safado!
- Preconceito é crime! – falou irritado e se afastou. Voltou a estudar e não olhou mais para os lados, apenas para o livro, e não viu para onde o rapaz foi. Algum tempo depois, trancou a recepção e foi para sua casa que fica no andar de baixo. Encontrou sua esposa assistindo televisão com a filha que já dormia apoiada nas pernas da mãe.
- Boa noite querida.
- Como foi o trabalho?
- Pouco movimento...
- Me ajuda a botar a Manú na cama. – Seu Nilo pegou a filha no colo e levou-a para o quarto, enrolou-a e beijou seu rosto. Voltou para sala e encontrou sua esposa ouvindo música: - Lembra?
- Nosso casamento... – ele segurou a mulher pela cintura e começaram a dançar.
- Eu estou muito feliz.
- Eu também estou. Eu amo você. - eles se beijaram.
De repente, escutam um barulho, um tiro, Manú entrou na sala assustada.
- Eu acho que é no segundo andar.
- Eu vou lá, fiquem aqui, não saiam.
- Cuidado pai.
Seu Nilo saiu correndo, lembrou de ligar para a polícia, mas ao sair encontrou uma viatura passando na rua.
- Ouvi um tiro no segundo andar! – Os policiais o acompanharam às pressas, bateram a porta das meninas, ouvia-se pedidos de socorro, a porta estava trancada, um dos policiais arrombou-a com um chute, Seu Nilo teve um susto com aquela cena:          - Meu Deus!
- Ajuda!- Adriana gritou.
- Eu vou chamar a ambulância. – Seu Nilo saiu para pegar um telefone. Mas antes, viu um dos policiais segurar Larissa nos braços e correr com Adriana para o camburão. Ligou primeiro para Pedro, o irmão de Larissa: - Pedro... Larissa... Sua irmã levou um tiro, já estão levando para o hospital, a situação é grave. Parece que foi um assalto... OK!
Seu Nilo voltou ao apartamento das meninas, os vizinhos estavam assustados observando a cena do crime e outros acompanharam a movimentação até a rua. Seu Nilo encontrou um dos três policiais no local, tinha acabado de desligar o celular.
- Chamei reforços, permaneça aqui para os peritos falarem com o senhor.
- Eu espero. Eu posso ligar para a minha família? Quero informar que vou demorar...
- Claro.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

VIVER A VIDA

De quinta a domingo, após o expediente, Pedro ia a uma boate LGBT perto de sua casa, onde morava com Larissa e Adriana. Lá ele encontrava seus amigos, dançava, bebia, se divertia.
Quando falou a seus pais sobre sua orientação sexual, foi acolhido com todo amor que uma família poderia dar. Mas Pedro ainda era vítima de preconceitos e agressões. Ele era consciente das atitudes humanas, fingia não ouvir o que falavam de sua vida.
Naquela noite, Pedro foi à boate com uma amiga do trabalho que queria conhecer o espaço.
- Você vai amar a boate!
- Hoje eu quero abalar as estruturas!
- Então te prepara que o lugar é bom!
Pedro e sua amiga curtiram a noite, conheceram gente nova, estavam felizes.
Mas nem tudo são estrelas, a noite estava boa demais. Um rapaz que estava fumando agarrou a amiga de Pedro, ela não queria dançar com ele porque a fumaça do cigarro impregnava seus pulmões.
- Solta ela, cara!
- A biba vai fazer o quê?
Pedro deu um soco no nariz do rapaz, espirrou sangue, ele quis revidar, mas os amigos de Pedro o seguraram e o expulsaram da boate.
- Você está bem, amiga? – Pedro abraçou a amiga.
- Quem é ele?
- É um idiota. Rico, tarado e ladrão!
- Será que ele vai voltar?
- Os meninos não deixam. – Ele acenou para uns homens musculosos que estavam sentados numa mesa. – Vamos dançar. – O celular dele tocou. – Ui!...Tá vibrando... Alô? Seu Nilo?
- O que aconteceu, Pedro? – a amiga perguntou.
- Eu estou indo para o hospital agora... Tá bom, eu ligo para os meus pais.
- Fala Pedro! – ele estava pálido e nervoso, nem conseguia apertar os botões do celular.
- Minha irmã levou um tiro!
- Meu Deus!
- Mãe? Aconteceu uma coisa horrível... Não é comigo. Larissa levou um tiro, já a levaram para o hospital... Assalto... TCHAU. – Desligou o telefone. – Eu tenho que ir amiga.
- Eu vou com você.
A amiga de Pedro pegou um táxi. Ele passou na casa deles em busca de notícias, muita gente tentando bisbilhotar o acontecido, a polícia estava lá. Seu Nilo o deixou entrar, o noivo de Adriana, João Antônio, também estava. Ele era detetive da polícia.
- Encontrou alguma coisa?
- O ladrão estava sem luva.
- Sumiu alguma coisa?
- Não. Fique tranquilo, aqui você não vai ajudar em nada. Vá para o hospital...
Pedro ainda olhou para trás e viu o sangue no chão, marcas de mãos ensanguentadas por todo lado, as lágrimas desceram, ele saiu apressado do prédio em busca do hospital.

domingo, 16 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA

A CARTA

Adriana lembrou o momento em que conversava com Larissa. Quando estava em seu quarto, arrumando algumas gavetas, encontrou um pequeno baú que servia para guardar papéis de carta. O celular tocou, era João Antônio, seu noivo: - Oi amor! Como foi a viagem?
- Muito bem, amanhã eu passo aí para sairmos... E Larissa?
- Como sempre... Agora inventou de dizer que não vai se sentir sozinha.
-Ela devia voltar para a casa dos pais.
- É. Eu já disse isso, mas é muito teimosa.
- Eu poderia passar a noite conversando com você, mas voltei cheio de trabalho, estou investigando um assaltante que anda rondando o bairro em que você mora.
- Tomara que ele passe bem longe daqui!
- Eu o pego antes!
- Claro que sim, meu herói! Bom trabalho, amor.
- Até amanhã.
Adriana voltou ao que estava fazendo, encontrou uma carta de Larissa quando fez uma viagem de intercâmbio e passaram um ano sem se ver. Resolveu abri-la e ler:

Querida Adriana,

Faz apenas um mês que os deixei, e de tanta saudade, resolvi escrever-te uma carta falando dos últimos acontecimentos. Eu não tenho muito que dizer, porque lembrei que quase todo dia nos falamos por telefone. Nesta carta, quero falar de algo que temos em comum, mas nunca paramos para conversar.
A nossa amizade parece o Sol, pois você ilumina a minha vida. Você apareceu e nunca mais saiu dela. Como posso agradecer o tanto de vezes que você me salvou das enrascadas? Ou os momentos que você me consolou quando brigava com os meus pais? Não. Eu não consigo parar de agradecer a Deus sempre que rezo, sempre que lembro nossas aventuras, dos nossos sonhos, somos irmãs! E é sempre bom contar com você, não sei como seria o mundo se não existissem Adriana e Larissa, as companheiras inseparáveis. Assim será sempre, eu e você.
OBS: Queria poder falar mais. Mas não consigo enumerar e dizer o quanto te respeito, admiro e nunca vou cansar de dizer que você é minha amiga.

BEIJOS,
Larissa

Quando Adriana resolveu guardar as coisas, abriu a mesma gaveta e encontrou um saquinho vermelho envolto de um laço rosa, abriu, o virou na palma da mão, era um escapulário com a imagem de São João Batista, protetor das amizades. Pôs no pescoço sorrindo de alegria, teve um susto ao ouvir um barulho vindo da sala, não se importou, devia ser um gato. Segundos depois, escutou outro barulho, dessa vez, não parecia gato, mas um tiro, que vinha da sala. Saiu correndo e chegando ao fim do corredor, acendeu a luz e encontrou Larissa em pé, cambaleando para trás, não tinha mais ninguém na sala bagunçada, Adriana amparou-a nos braços. Ela chorava e gritava por socorro.

Obs: A cada capítulo será mostrada as visões de um personagem.